
Desde
a primeira viagem já rodamos mais de 31.000 km pela América
Latina. E neste ano em especial , eu Edilson Dorada, minha esposa Sayuri
e os grandes amigos, Francisco Bello e Juliana, foram mais uma vez companheiros,
este grupo é sem duvida, algo especial....que dá sentido
a todas as nossas expedições...
O últimos 14.000 km foram recheados
de belas e exóticas paisagens. A expedição teve como
destino às planícies da Patagônia e longínqua
Terra do Fogo, cruzando inúmeras vezes a fronteira entre Argentina
e Chile no extremo sul da América Latina. Viajando por dias intermináveis
nesta época do ano às voltas do Círculo Polar Ántartico...
Cada quilômetro vale a pena...
Começamos a viagem dia 17/12/05, por volta das 6:10 h da manhã deixamos Ponta Grossa e neste mesmo já pisávamos em solo argentino. No início, embora em outro país, tudo se parece muito com as paisagens que estamos acostumados a ver por aqui, mas, à medida que vamos descendo rumo ao sul do continente, a paisagem vai mudando radicalmente.
A pouco mais de 1.500 km dentro da Argentina, já tivemos contato com uma espécie de deserto, não tão inóspito como o de Atacama no Chile, mas tão desolador quanto. Dotado de uma vegetação similar ao nosso serrado, este deserto se estende por muitos quilômetros.
Uma vastidão de terras que às vezes parece até nem ter dono, dado a situação de total ausência de pessoas...
Aos poucos nos demos conta de que grande parte da patagônia é uma grande planície, de vegetação rasteira os ventos fortes que podem atingir os 150 km/h e que embora a presença humana por um longo período da viagem tenha sido pequena, a Patagônia é na verdade um grande acúmulo de vida animal em diversas formas...
Optamos pela costa do Atlântico como rota de ida já terceiro dia de viagem estávamos em
Puerto Madryn, uma cidadezinha acolhedora, situada próxima a Península Valdez.
Famosa pela observação de baleias e pela quantidade enorme de pingüins de Magalhães que escolheram a reserva de Punta Tombo como moradia, distante 80 KM de Puerto Madryn, o local abriga um total aproximado de 800.000 aves, porem segundo o Guarda Parque que nos recebeu, esta contagem já esta sendo refeita e estima-se um numero ainda maior, que pode chegar a 1 milhão de pingüins.
Estávamos em meio aquelas criaturas magníficas, tão próximos a ponto de podermos tocá-las e, embora meia a contragosto das aves, o toque em suas penas foi inevitável.
Uma sensação indescritível, caminhar em meio aquelas aves, ouvindo seus grunhidos combinados ao som do mar e do vento é algo do qual nunca vamos nos esquecer...
Nesta época do ano em particular elas estão um pouco mais desconfiadas do que de costume, visto que estavam em plena época em que os casais estão trabalhando no cuidado dos filhotes.
Os filhotes por sua vez ainda estavam na fase de plumagem negra, e conseguem ser mais desajeitados que seus pais, pelo menos fora d´água.
Os adultos, com seus trajes de penas brancas e pretas sempre muito bem alinhados, num ritmo frenético de entra e sai do mar na incansável busca por alimento.
Descendo ainda mais pela costa do Atlântico, passamos por Monte Leon, local repleto de Leões Marinhos, uma das muitas colônias desde animal, que se encontra em quase toda a costa e embora o local fosse meio remoto, com ventos fortes e temperatura baixa, a visita valeu a pena. O contato com este tipo de vida selvagem é sempre gratificante. Infelizmente, ou felizmente não é possível a aproximação, a colônia se localiza em uma encosta íngreme de mais de 70 metros de altura, e os bichos só podem ser vistos de uma distância considerável.
Desde este ponto a sensação térmica começava a se aproximar de zero grau. A noite se aproximava, pelo menos no relógio..., e as 22:45 paramos em um posto de combustível que também era um Hotel, no pequeno vilarejo de Trez Cerros, um lugar isolado do mundo, no meio do nada, a beira da rodovia. E próximo das 23:00h o sol apareceu por entre as nuvens.
Este começaria a ser o maior sinal de aproximação da região do planeta em que a luz pode ser, em determinada época do ano, uma companheira constante...Enfim estávamos mais próximos do pólo do que nunca estivemos...
No quinto dia de viagem chegamos ao Estreito de Magalhães, depois de uma travessia com mar não muito calmo, estávamos finalmente pisando na tão sonhada Ilha da Terra do Fogo. A temperatura ia baixando e a euforia aumentando a cada minuto, e embora a paisagem não mudasse muito, a sensação de estar tão perto do final da América do Sul era algo que nos deixava extasiados...
Paramos para dormir em uma cidade chamada Rio Grande, que nesta época do ano não é tão fria, cerca de 8 graus positivos, mas que no inverno registra temperaturas de até 30 graus abaixo de zero.Poderíamos ter chegado neste mesmo dia a Ushuaia, mas, não havia motivo pra pressa, embora tivéssemos cada vez mais luz do dia pra viajar, decidimos apreciar e conhecer muito mais coisas...
No sexto dia chegamos até Ushuaia. A cidade construída mais ao sul do mundo, distante apenas 1.000km da Antártica, é também chamada de fim do mundo, e acredite, esta é mesmo a sensação que se tem ao chegar lá, chegamos ao fim do mundo...
Construída para suportar temperaturas baixíssimas, nevascas extremas e ventos fortes, a arquitetura da cidade é algo muito especial, com seus telhados coloridos as casas mais parecem fazer parte de um grande presépio, montado em meio a montanhas com picos eternamente nevados, montanhas estas que marcam o início da maior cadeia de montanhas do planeta, a Cordilheira dos Andes.
No outro dia arriscamos uma escalada em uma montanha próxima a cidade, o Glaciar Martial, conseguimos enfim pisar na neve próxima ao topo, e do alto da montanha podíamos avistar Ushuaia, a beira do Canal de Beagle, com sua beleza singular.
E já que fomos até tão longe de carro, nada mais justo que percorrer os últimos quilômetros de estrada na América do Sul, rodamos um pouco mais além da cidade e chegamos até o final da Ruta 3, marcando o final da estrada na América Latina num local chamado Bahia Lapataia.
Deixamos Ushuaia e partimos rumo ao Pacífico, o trajeto de volta seria mais longo, foi feito pela cordilheira, em meio a glaciares e aos lindos parques nacionais.
Cruzamos mais uma vez o Estreito de Magalhães e seguimos até Puerto Natales, no Chile, ponto de partida para a visita ao Parque Nacional Torres del Paine.
Quando se chega próximo de Torres del Paine, tem-se a idéia do tamanho das montanhas dos Andes, a aproximação é feita por uma planície que não passa dos 250m de altitude e, meio que do nada, surgem no horizonte, enormes paredões de granito com mais de 3.000m de altura, com neve eterna cobrindo os picos, é algo incrível.
Era dia de Natal e estávamos caminhando em uma trilha que leva ao pé das Torres, no total andamos por 22km numa tarde ensolarada, e chegamos no ponto em que se avista as imensas paredes de granito, e aos seus pés um grande lago esverdeado, formado pela água de degelo de neve.
Este parque possui mais de 100km de estradas em seu interior e por onde se olhe, a paisagem é sempre incrível.
Circulamos as montanhas e fomos até o Glaciar Grey, primeiro de nossa expedição,
O gelo que se forma a partir da neve acumulada no topo da montanha, vem sendo prensado até encontrar um lago, no qual imensos blocos de gelo flutuam, icebergs de cor azul intenso e de tamanho surpreendente podem ser quase tocados á beira do lago.
Junto das montanhas este lago com seus blocos de gelos azuis compõe um dos cenários mais belos da Patagônia Chilena.
Partimos de Puerto Natales já com saudades, o destino agora era a cidade de El Calafate, em solo Argentino. Entramos no Parque Nacional dos Glaciares e desde Calafate rodamos uns 60 km até o famoso Glaciar Perito Moreno, um magnífico bloco de gelo, muito maior que o primeiro glaciar visitado. É quase inacreditável, de tão grande que tem até seu próprio clima.
Sobre a superfície do lago fora a parte submersa, ergue-se um paredão de gelo com 70 metros de altura, 7 Km de largura e 36 Km de comprimento, e tudo pode ser visto de uma passarela, montada de modo que se fica muito próximo da imensa geleira, que tem idade estimada de 20.000 anos.
O dia é curto pra apreciar tanta beleza; A queda de pequenos pedaços é constante, assim como o som do gelo rachando, dando a impressão de que a geleira parece estar viva...
Ficamos à espera da queda de um grande bloco de gelo sobre a água. que no final da tarde finalmente aconteceu, produzindo um som ensurdecedor e causando ondas enormes na superfície do lago, de águas quase congeladas.
Já de manhã seguimos viagem rumo ao Chile e então, entrando por um lugar chamado Chile Chico demos início a outra fase muita esperada por mim, percorremos boa parte da estrada mais famosa do território Chileno, a Carretera Austral, uma estrada quase toda de terra tem seu 1.200km esculpidos em meio às montanhas andinas, no extremo sul do país, recheada de lagos, montanhas nevadas e aventureiros, é sem dúvida um grande destino pra quem busca aventura e emoção, mas exige um grande preparo anterior a viagem, devido a posição geográfica, poucos se arriscam a visitá-la.
Em Puerto Rio Tranquilo fizemos um passeio que tinha como finalidade conhecer as capelas de mármore ou Capillas de Marmol, como são chamadas por lá. lindas cavernas, caprichosamente moldadas em enormes pedras de mármore pela ação das águas e, creio eu, também algum componente químico na água pode ter resultado em um espetáculo da natureza, no mínimo exótico.
Dormimos em Cerro Castillo, um dos poucos vilarejos que se encontram pela Carretera, em um lugar bacana que nos permitiram usar a cozinha. Descansamos em meio à cordilheira, em um local que no inverno a temperatura chega a 30 graus negativos, mas que naquela noite estava agradável, próximo aos 10 graus.
No outro dia seguimos viagem, passamos pelo parque nacional Queulat, com suas plantas de folhas enormes, fiordes do oceano Pacífico, e uma estrada que parecia ter saído de algum filme... Dormimos em Futaleufu que além do nome estranho, foi nosso refúgio de ano novo. Encontramos uma cabana, com acomodações agradáveis para os 4, com cozinha e tudo mais, acabamos comendo salsicha enlatada com molho de tomate, em plena festa de ano novo. Mas acreditem, quando se está em plena Carreteira Austral, cercado por um visual esplendido, com amigos incríveis, salsicha é facilmente confundida com um grande banquete...
De volta a Argentina num entra e sai interminável de países, seguimos rumo a Bariloche, que confesso, depois de passar por lugares lindíssimos, Bariloche tinha com certeza seu lugar garantido entre as belas paisagens, e como se não bastasse, acabamos nos acomodando em uma cabana incrível, que foi eleita pelo grupo a mais incrível de todas até o final da viagem.
Decidimos no outro dia fazer a Rota dos Sete Lagos, conhecida por muitos países através das inúmeras reportagens a respeito dos Lagos Andinos.
Deixamos a cidade pela Ruta 40, e cercados de cenários lindíssimos percorremos uma estrada de chão batido, ou melhor, “rípio”, por cerca de 300 km, é sem dúvida um circuito magnífico, não só pelos lagos, mas pela paisagem em geral, composta de montanhas com picos nevados, cabanas em perfeita harmonia com o ambiente e rios de beleza ímpar.
Passamos por San Martim de Los Andes, uma cidadezinha as margens de um lago, é sem duvida o tipo do lugar em que muitos sonham ir morar, aqueles lugares onde tudo combina, ruas limpas, casas belíssimas, e até mesmo o comércio local, com suas lojas com fachadas emolduradas por troncos envernizados, fazem San Martin de Los Andes um colírio aos olhos e um calmante para as idéias. Naquele mesmo dia chegamos a Villa la Angostura, também situada a beira de um lago, fica difícil dizer qual das duas vilas é mais bela e aconchegante, tanto quanto San Martin, La Angostura é fantástica, com arquitetura onde a madeira é predominante , cria o desejo de que se pode passar por lá inúmeras vezes e sempre gostar...afinal ela é conhecida com o Jardim da Patagônia...
Desde La Angostura até a fronteira com o Chile foram poucos quilômetros por uma estrada belíssima, como todas nesta região, nem bem havíamos entrado em solo Chileno e já avistamos o imponente Vulcão Osorno, estava muito longe mas, já era majestoso. Durante quase todo o resto do dia de viagem ele nos faria companhia.
Já na cidade de Puerto Montt, visitamos um mercado de peixe, compramos um filé de salmão, e ao final da tarde na cidade de Frutillar a beira do lago e com o Osorno ao fundo, preparei o esperado sashimi com legítimo salmão chileno de Puerto Montt.
A próxima parada na rota era a cidade de Pucón, famosa por estar localizada aos pés do Vulcão Villarica, um gigante em plena atividade, no dia de nossa chegada ele se recusou aparecer em meio às nuvens e um céu cinzento e chuvoso, esperamos na cidade por mais um dia, confinados em uma linda cabana, mas infelizmente, o Villarica ficou sendo um item marcado para ser visitado sem falta, em outra expedição que espero ocorra em breve.
Subimos pelo Chile até a cidade de El Quisco, distante cerca de 100km de Santiago, no litoral Chileno com uma bela praia e um por do sol, que foi pela primeira vez sobre as águas do Pacífico sem a presença de nuvens.
Passamos por Santiago como um raio, sem paradas, pois a cidade de seus monumentos e construções não eram o foco de nossa expedição.
Entramos novamente na Argentina pela rota dos caminhões, a passagem do Cristo Redentor, uma obra incrível de engenharia, incrustado em meio às montanhas este túnel é a principal ligação entre os dois países.
Saímos da estrada principal e em alguns metros pela estradinha de chão, já estávamos no parque Aconcágua, desde a rodovia já pudemos avistar Monte Aconcágua, imponente com seus quase 7.000m de altura é a montanha mais alta fora da cordilheira do Himalaia. Troféu para alguns alpinistas e últimos passos para muitos, aquela imensa montanha é um tributo à grandeza da natureza em sua forma intocada...Uma despedida da cordilheira com grande estilo...
Desde este ponto até o Brasil foram uns 3.000 Km de retorno pela cidade de Mendoza, famosa pelas vinícolas, e Córdoba, uma grande capital de província.
Voltamos cheios de idéias para outras aventuras que já estão preparadas e que em breve esperamos realizar. Por hora o relato das outras aventuras e algumas fotos desta última estão disponíveis aqui no site do grupo.
Agradecimentos especiais a Guel Propaganda e Cleon Costa, amigos que nos deram grande apoio. Também a todas as pessoas que de algum modo ajudaram a tornar possível esta aventura...
Abraço.
Edilson Dorada

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